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TRAMA DO RPG

A tensão entre Miríade e Thedas não era recente. Desde os tempos do antigo Império Aurathiano, Thedas havia construído sua força através do domínio marítimo, do comércio e da influência sobre os territórios continentais. Mesmo após a ascensão de Miríade, essa disputa nunca desapareceu completamente. Os dois Impérios evitavam uma guerra aberta: Thedas possuía uma das maiores forças navais conhecidas, enquanto Miríade concentrava enorme poder militar em terra. Entre ambos, o mar tornava qualquer invasão uma campanha longa, cara e arriscada. Markdown colado Markdown colado

A situação mudou recentemente, quando uma comitiva de Miríade enviada a Thedas para discutir novas restrições comerciais foi atacada durante a viagem de retorno. Entre os mortos estava um membro da Família Imperial de Miríade, acompanhado de diplomatas e soldados. Thedas negou qualquer participação e atribuiu o massacre a piratas, mas Miríade acusou o Império vizinho de permitir — ou mesmo ordenar — o ataque. Nenhuma prova definitiva foi apresentada, e as relações entre os dois lados praticamente ruíram. Em poucos meses, navios militares passaram a patrulhar as águas com maior frequência, comerciantes começaram a evitar determinadas rotas e ambos os Impérios reforçaram suas defesas.

Desde então, existe uma paz apenas no nome. Nenhum dos lados deseja ser o primeiro a iniciar uma guerra que pode consumir milhares de vidas, mas ambos se preparam para ela. Para Miríade, Novigrad tornou-se uma das posições mais importantes dessa defesa: uma cidade fortificada no litoral e uma das primeiras grandes barreiras entre uma possível frota de Thedas e o interior do Império. Enquanto soldados vigiam suas muralhas e embarcações observam o horizonte, a Corte tenta impedir que um novo incidente transforme décadas de rivalidade em guerra aberta. O que ninguém sabe é que, muito antes de qualquer exército atravessar o mar, Thedas já começou a mover suas primeiras peças dentro de Miríade.

Narração

O Grande Salão Imperial permanecia em silêncio enquanto a audiência avançava. No ponto mais elevado, o Imperador observava a Corte de seu trono; abaixo, chanceleres, ministros e altos oficiais permaneciam de pé em duas grandes alas, divididos tanto por suas funções quanto pelas alianças políticas construídas ao longo dos anos. Depois dos assuntos menores daquela manhã, a Ministra das Finanças avançou e apresentou o problema que há semanas preocupava os portos orientais. Piratas estavam atacando navios mercantes com uma frequência incomum. Cargas inteiras haviam desaparecido, embarcações tinham sido incendiadas e algumas sequer retornaram. Os prejuízos já atingiam comerciantes, arrecadação imperial e contratos de abastecimento.

— Majestade, perder uma embarcação é um infortúnio. Perder várias nas mesmas rotas é um problema de Estado. Alguns comerciantes já se recusam a partir sem escolta, enquanto outros aumentaram seus preços para compensar o risco. Se isso continuar, o prejuízo chegará ao interior antes mesmo que vejamos seus efeitos nos portos.

O Ministro da Guerra avançou logo depois. Para ele, o problema já havia ultrapassado aquilo que guardas costeiros poderiam resolver. Defendeu o envio de uma força naval para localizar os esconderijos dos piratas e destruir suas embarcações antes que novos ataques acontecessem. O Chanceler da Direita, porém, imediatamente questionou de onde sairiam esses navios. Com as relações entre Miríade e Thedas deterioradas, deslocar parte considerável da frota de Novigrad significaria reduzir a principal defesa marítima do Império justamente quando o outro lado vinha aumentando sua presença naval.

— Então permaneceremos ancorados enquanto saqueiam nossas águas? Uma fortaleza que não consegue proteger aquilo que existe além de suas muralhas apenas espera que o inimigo escolha quando atacá-la.

O Chanceler da Direita permaneceu imóvel diante da provocação.

— E um general que persegue cada ameaça que aparece diante dos olhos pode descobrir tarde demais que estava sendo conduzido para longe da ameaça verdadeira.

O comentário provocou murmúrios, mas o Imperador permaneceu imóvel. Aquela possibilidade já lhe ocorrera antes mesmo da audiência. Havia algo desconfortavelmente conveniente na situação. Piratas atacavam justamente quando qualquer resposta militar de Miríade precisava considerar a tensão com Thedas. Se a frota permanecesse próxima de Novigrad, o comércio continuaria sofrendo. Se fosse enviada para perseguir os responsáveis, parte do litoral ficaria menos protegida. Qualquer decisão parecia obrigar o Império a expor alguma fraqueza. Talvez fosse coincidência. O Imperador, porém, havia aprendido há muito tempo que coincidências capazes de beneficiar demasiadamente alguém mereciam ser observadas.

O Chanceler da Esquerda apresentou uma solução intermediária: Novigrad manteria sua força principal, enquanto embarcações menores seriam retiradas de outros portos para formar escoltas móveis. O Ministro do Povo imediatamente apontou a consequência. Diversos portos menores dependiam dessas mesmas embarcações para combater contrabandistas, proteger comunidades costeiras e manter a segurança das rotas locais.

— Podemos proteger os mercadores e deixar dezenas de comunidades sem qualquer presença imperial. Quando criminosos perceberem isso, não teremos resolvido uma crise. Teremos criado outra.

A Ministra das Finanças discordou. Para ela, perder as principais rotas comerciais acabaria prejudicando justamente essas populações. Menos comércio significava menor arrecadação, aumento dos preços e menos recursos disponíveis para as próprias províncias.

— O dinheiro que mantém essas patrulhas também chega pelos portos que estamos perdendo. Não podemos proteger tudo sacrificando aquilo que financia a proteção.

Enquanto os ministros discutiam, o Imperador deixou os olhos descerem discretamente até os relatórios diante do trono. Havia marcado pessoalmente alguns nomes antes da audiência. Navios carregados de seda, metais preciosos e artefatos haviam atravessado as mesmas águas sem incidentes. Outros, transportando cargas aparentemente menos lucrativas, tinham sido perseguidos durante horas. Um deles carregava ferramentas destinadas à manutenção portuária. Outro transportava provisões contratadas pelo governo. Aquilo não combinava inteiramente com homens interessados em enriquecer. Piratas procuravam lucro. Aqueles pareciam, em algumas ocasiões, procurar cargas específicas.

O Ministro da Justiça acabou chegando ao mesmo ponto por outro caminho. Segundo os sobreviventes e os registros portuários, alguns ataques demonstravam conhecimento preciso sobre horários, trajetos e cargas. Defendeu que funcionários dos portos, capitães, companhias mercantis e responsáveis pelos registros de navegação fossem investigados antes de qualquer grande movimentação naval.

— Piratas não deveriam saber qual embarcação transporta seda e qual transporta trigo antes de abordá-las. Alguém está escolhendo os alvos por eles.

O olhar do Imperador permaneceu sobre ele por alguns segundos.

Não respondeu.

Agora duas de suas suspeitas possuíam fundamento: os ataques eram seletivos e informações provavelmente estavam vazando. Ainda assim, algo continuava errado. Se havia informantes, por que desperdiçar informações privilegiadas atacando algumas cargas de valor inferior? E por que destruir certos navios em vez de simplesmente saqueá-los?

Havia outra possibilidade.

Talvez o valor das cargas não estivesse no preço.

Talvez estivesse em para onde elas estavam indo.

O Imperador não compartilhou o pensamento.

O Ministro das Obras acrescentou que, caso os ataques continuassem, seria necessário reforçar portos menores, restaurar antigas torres costeiras e construir novos postos de observação. O Ministro da Guerra rebateu que essas obras demorariam meses. O Chanceler da Esquerda voltou a defender comboios. A Ministra das Finanças alertou que reunir mercadores em rotas previsíveis poderia criar alvos ainda mais valiosos. O Ministro da Justiça insistiu na investigação interna. O Chanceler da Direita voltou a mencionar Thedas. Em poucos minutos, cada solução apresentada criava novas consequências.

O Imperador ouvia tudo.

Mas já não pensava somente em piratas.

Tentou imaginar a situação pelo lado contrário. Se alguém desejasse enfraquecer Miríade sem declarar guerra, o que faria? Atacaria Novigrad diretamente? Não. Isso reuniria o Império contra um inimigo evidente. Atacaria embarcações militares? Também não. A resposta seria imediata.

Mas piratas eram diferentes.

Piratas obrigavam Miríade a gastar dinheiro, espalhar patrulhas, modificar rotas e discutir internamente qual ameaça deveria receber prioridade.

E, sobretudo, não possuíam bandeira.

Ainda era apenas uma hipótese. Poderia estar enxergando intenção onde havia somente oportunismo. Por isso permaneceu calado.

Durante quase toda a discussão, o Grão-Chanceler Imperial ficou próximo aos degraus do trono, intervindo apenas para organizar a ordem das falas. Quando finalmente apresentou sua posição, não apoiou nenhuma proposta por completo.

— A Corte está tentando responder a uma pergunta que ainda não compreendemos, Majestade. Antes de decidirmos quantos navios enviar, talvez devamos descobrir contra quem pretendemos enviá-los.

Dessa vez, o Imperador demorou um pouco mais antes de responder. Observou uma ala. Depois a outra. Ministros, chanceleres, generais, escribas. Todos discutiam o que fazer com os piratas.

Ele começava a desconfiar de que aquela era a pergunta errada.

— Basta.

O salão inteiro se calou.

— Nenhuma decisão será tomada hoje. Cada ministério reunirá as informações pertinentes à sua área e apresentará suas recomendações na próxima audiência. Quero conhecer não apenas os benefícios de cada proposta, mas aquilo que estaremos sacrificando ao adotá-la.

Os ministros curvaram-se. Alguns ainda trocaram olhares entre as duas alas, claramente insatisfeitos com a ausência de uma decisão.

— A audiência está encerrada.

O Imperador se levantou e deixou o trono.

Não revelou suas suspeitas.

Ainda não possuía provas para acusar Thedas, tampouco evidências de que existisse algo além de pirataria. Mesmo assim, uma pergunta o acompanhou enquanto deixava o salão.

Se aqueles homens realmente desejavam apenas ouro… por que seus ataques pareciam cuidadosamente escolhidos para obrigar Miríade a tomar decisões?

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